quinta-feira, 19 de junho de 2008

Não somos mais do que um teclado genético...

Quem já teve o prazer de tocar música, sabe que não há emoção mais doce, do que acariciar as teclas frias dum piano, ou sentir a vibração de uma corda de viola acabada de tocar...

Quem já tocou percebe a satisfação de saber que, com cada nota tocada, estamos a criar algo.

É certo que a sua beleza e duração são mínimas...
mas a junção de todas estas pequenas partículas de beleza infíma, criam algo absolutamente avassalador...

Quem já tocou sabe o orgulho que cresce à medida que aprendemos a tocar a música com as notas todas e com o ritmo certo...
o orgulho de quem faz renascer uma obra feita por outrem e lhe dá um pouco de si...
e o orgulho gigantesco, quando pela primeira vez, olhamos para uma melodia feita por nós...

Dizem que a música é o alimento da alma...isso para quem ouve...
mas para quem a toca...
Para quem a toca a música rouba os sentimentos e depois devolve-os, límpidos, em cada nota, em cada silêncio perdido, em cada compasso de espera...

A mim... a música roubou-me a alma à muito tempo...
vendi-a sem me aperceber, em troca do mundo que ela me ofereceu...
(acho que não fiquei a perder...)
Para mim... a música é vida...
e quando me sento à frente do piano, ou com a viola nas mãos...
o mundo volta a fazer sentido...

Tocar uma música faz-nos muitas vezes desesperar, pensar em desistir, andar para a frente e para trás sem saber como sair daquela nota que sai mal... É preciso muita paciência, muito treino, horas passadas a aprender aqueles dois compassos que não estão bem...
Mas depois...
depois vale tudo apena...

Continuo a não conseguir arranjar melhor analogia para aprender a tocar uma música...
para mim tocar uma música parece-se incrivelmente com...
viver uma vida...


...em busca da mão certa para tocar a melodia da nossa vida...


1 comentário:

catarina disse...

[eventualmente, todos nós fazemos falta a alguém. o que não desfaz, de maneira nenhuma, o pequenino conforto de saber que a fazemos (à falta) a um outro alguém. obrigada.]

quando era miúda, aprendi a tocar violino. depois deixei o conservatório porque não morria de amores por aquilo e porque o meu professor de formação musical era um benfiquista insuportável e eu já não podia ouvir as piadinhas durante os ditados melódicos [após tocas um acorde menor] "vêem, meninos, isto é um acorde do FCP...". mas ainda gosto de sentir o vibrar suave das teclas debaixo dos meus dedos. e ainda gosto do cheiro a madeira encerada. diacho. até acho que gostava de fazer um ditado melódico, piadinhas parvas incluídas. mãe, pai, estão perdoados.