segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Encosta-te a mim...

Ao tentar falar, não consigo dizer mais do que simples monossílabos, e por isso fico-me pelo silêncio que cai com o suave passar dos segundos [uma eternidade mais parece], até mais alguém aparecer e um suspiro de alívio mudo se entrecruzar entre nós...

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.


Na verdade tenho mil e uma coisas que te queria dizer [e fazer-te perceber], tanta coisa para me ensinares, e eu fazer-te aprender, tanta coisa que podemos fazer e que fazemos sem nos apercebermos, o nicho que criámos neste nosso cantinho plantado à beira do mundo que partilhamos todos os dias.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Porque nos procuramos um ao outro numa dança surda e pausada, mas afastamo-nos quando podemos seguir em frente, por medo ou por teimosia [não sei...].

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.


Mas tu percebes e eu percebo, e no entanto não fazemos ideia daquilo que temos em mão e que deixamos cair lentamente no esquecimento, como uma folha a ser levada pelo vento.

Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.


Há tantas coisas que estamos a partilhar, e que criamos juntos, um espaço conjunto [nosso e de mais ninguém]. Mas fugimos quando estamos juntos, e os nossos olhos se procuram no meio da multidão inexistente. Porque quando tu falas, ouves-me a mim, e eu falo-te só a ti [mais ninguém vai perceber do que falo e porquê...]. E as nossas loucas odisseias musicais, a maneira como cantas e [me] encantas que irritam tanto os demais que têm de nos aturar diariamente...

Eu venho do nada, porque arrasei o que não quis
em nome da estrada, onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.


Tanta coisa que temos e que perdemos e voltamos a encontrar e nos recusamos a descobrir ou deixar partir ou a escolher ficar. Estamos neste impasse, neste stasis movimentado, nesta batalha entre as emoções que moram no teu cérebro e a lógica que vive no meu coração, nesta recusa premente em aceitar e deixar correr, nesta negação constante de vidas que tentamos apagar e não conseguimos deixar de relembrar todas as noites ao adormecer...
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

E ao escrever [Porquê escrever? ah pois aquela parte do tentar falar, e não conseguir dizer mais do que simples monossílabos, e por isso fico-me pelo silêncio que cai com o suave passar dos segundos...] algo que tu nuncas vais ler. Estarei realmente a tentar fazer passar esta mensagem por entre os infinitos anos luz que estão no metro que nos separa? Até posso estar a enviar, mas sei que provavelmente não vai chegar. Seria tão mais fácil dizer-te, guiar-te até onde te quero levar, mas a coragem não nasce nas árvores [pois sei que não]. Em vez disso cai como as folhas, e por entre as estações vai perdendo o seu vigor. E porque se calhar há mais em jogo do que uma nova [velha] má aposta da jogadora que eu sempre fui e que nunca quis ser. Porque tenho muito medo daquilo que poderá não ser [e se calhar ainda mais do ser...] e dos enganos em que posso [podemos] cair.


Fico-me então pela música, fico-me pela esperança e por estes sonhos que sentimos reais, pela inevitabilidade do que somos [e vamos ser] e da vida que tomei como minha e tua, afinal [desta vez sem talvez, mas com certezas]....
Porque às vezes uma canção diz tudo aquilo que não conseguimos perceber e dar a entender....

encosta-te a mim...

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