segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Chocolate

Hoje disseram-me que eu era uma criatura estranha...
depois de agradecer tal elogio, fitei o quadro à minha frente que tem aniversários de pessoas do laboratório e quase pensei em deixar tudo por ali.
Mas enquanto trauteava a música que passava no i-tunes, sem eu notar, num bater de asas muito leve, a palavra que estava na ponta da língua, obviamente, poisada para levantar vôo saiu para complicar as coisas...

- Porquê?

como uma cidade que se refugia a ouvir o toque de alarme, todo ele se encolheu, procurando um bunker onde se esconder até passar o momento de perigo. Mas com as munições em baixo e sem alimentação para muito tempo, até porque eu desliguei a música lá respondeu, baixando os olhos, numa voz meio séria, meio envergonhada:

- Porque não te percebo...

A conversa, ou pseudo dialogo/monólogo da treta, parou aqui.
Não porque eu não pudesse tentar arrancar as razões do não te percebo...
mas porque eu parei a pensar que eu também não me percebo...

tan tan...
bem vinda ao mundo real em que 90% não se conseguem perceber e as 90% dos 10% que resta percebem apenas o essencial (que nunca está visível ao olhos) para não se chatearem com dúvidas existenciais....

não é bem isso...
não é dúvidas de quem sou, onde estou e será que estou bem aqui, o que vou fazer no futuro, estarei a ser tudo aquilo que queria ser ou afins...

eu sou eu (incompleta, cheia de falhas e indecisões e coisas afins) e estou neste momento no laboratório das moscas que é onde quero ficar, se tiver sorte hei-de trabalhar aqui e dar aulas e investigar porque isso é o que quero fazer e o que me faz feliz, o que o futuro me reserva hei-de saber a seu tempo e nada mais....

a parte da qual eu não percebo é:
como é que eu pude mudar tanto e abdicar tanto de tanta coisa que considerei, até agora considero, tão importante?

olhando para trás, vendo o meu percurso, vejo que há coisas que não fazem sentido...
o meu problema não é o futuro, ou o presente...
é o passado...

para mim o passado pode ser muito útil como fonte de aprendizagem (se bem que algumas lições demore, tipo, 4 ou 5 tentativas para as saber de cor)...

quando se estuda evolução uma das primeiras coisas a aprender
é a traçar uma trajectória evolutiva...

e eu hoje à tarde estive a fazer a minha...

e fiquei triste, e incomodada e não muito bem impressionada, para ser sincera...

ao olhar para os meus passos incertos no caminho de calçada vi que não havia bonecos que pudesse desenhar com os sapatos...
e ao caminhar pela berma da estrada, por aquelas pedras grandes e compridas, algures pelo caminho desiquilibrei-me e caí...
e nem sequer dei por isso...
no meio dos desgostos do sol brilhante, não me dei conta que tinha perdido a capacidade de amar a chuva e dançar no silêncio da noite ao som da música que o vento me trazia...
tinha perdido o olhar nas nuvens e os desenhos que tinha inventado com a certeza de que o via era mais real do qualquer realidade escura e fria que (bem que me tentavam fazer crer) estava à minha volta...
tinha perdido o fascínio pelo vôo das bolas de sabão, sopradas numa tarde de sol, e pela liberdade e os sonhos que elas representavam para mim...
tinha caminhado pela floresta e de repente vi-me no meio de uma cidade cinzenta e fria que abafava todos os sonhos e esperanças....
ao olhar para as tardes de chuva em que me enconstava à janela e fechava os olhos para ouvir aquele ritmo constante que me embalava, ao olhar para as noites frias de inverno em que um sorriso me aquecia e a minha casa era o meu refúgio sagrado onde nada de mau acontecia tinham fugido...
desaparecido na neblina matinal de uma vida que acabava logo a seguir à hora de almoço....

vi, olhei e apercebi-me que:
para chegar aqui eu não fiz nada de especial, mas perdi tudo o que me tornava especial...

passo a explicar:
poderá parecer arrogante da minha parte,
mas grande parte da minha existência baseia-se no pressuposto de que eu sou única...
e isso torna-me importante de uma certa forma...
e isso faz com que a minha existência seja um pouco mais explicável...

mas vendo ao olhar para o meu percurso com atenção...
surgiu como um tiro no meio da tesa, a percepção de que na verdade não sou mais do que uma ovelha no meio de um rebanho, ou se preferirem (porque a analogia já está um bocado gasta), mais uma no meio da multidão (mas esta também está...)
mais uma folha seca que caí agora e é levada pelo vento frio de novembro...
sou igual a 500 mil pessoas que existem, vivem e respiram...

é estranho para mim verificar isto...
mas pior que isso é não conseguir percepcionar ao certo onde foi aquela volta do caminho...
aquela encruzilhada onde virei para o lado errado da vida...
ou talvez as encruzilhadas ou voltas...
não sei, não vi, não reagi à multidão que me arrastou...
pior...
não percebo...
porquê...

por isso agora vou para ali balir um bocadinho no meu canto e já volto...

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2 comentários:

catarina disse...

a mim, o adjectivo "estranho" tornou-se familiar... ao fim de algum tempo, ganhei-lhe carinho. sou estranha: e de certo modo, gosto.

assustador é a forma como me reconheci nas tuas palavras. a forma como também não sei bem onde caí.

só não curto é as mosquinhas. eu é mais bactérias. ah pois.

e esse raio de mania de pôr um calendário com os aniversários do pessoal é moda de ratos de laboratório ou quê?:)

PS: adoro esta música. descobri-a na banda sonora de um filme cujo nome não me recordo. já não a ouvia há algum tempo... de repente reparei que ela se adapta lindamente a mim neste preciso momento. ora seja;)

catarina disse...

THE LAST KISS!!!!!

é o nome do filme:)

ei: demorei, mas lembrei-me:)